Espiritualista



As pessoas sempre perguntam sobre a minha crença, então resolvi falar um pouco sobre isso.


Deve ser novidade para quem me acompanha a pouco tempo, mas eu sou espiritualista.
E quem me conhece desde criança sabe que eu cresci na igreja católica.
Cresci, m-e-s-mo-! Fiz parte do coral, do grupo de crianças, depois adolescentes, depois o grupo de jovens. Ia a retiros espirituais, palestras, convenções, tudo relacionado a esse universo. Nesse meio tempo, eu participava da liturgia, da coordenação da igreja, e também da catequese. Além de ter feito primeira eucaristia, fiz Crisma, e fui catequista! Sim, após todo o processo, fui catequizar (pasmem!). Aí que meu dilema íntimo ganhou força.


Eu me sentia uma farsa.


Falava de Deus, dos ensinamentos de Jesus, repetia religiosamente os dogmas e tradições católicos. Eu já estava no modo robótico. E sentia que, além de estar totalmente fora dos padrões (inclui o que penso sobre sexo, palavrões, tatuagens, música, literatura, homossexualidade, etc.), eu precisava de mais.
Eu amo o que vivi por todos aqueles anos, foram fundamentais para que eu me tornasse o ser humano que sou hoje... Porém, é como se faltassem peças de um quebra-cabeça (que ainda não terminei de montar, e acredito que nunca irei), quando me vi limitada, com uma crise existencial enorme, quase claustrofóbica, eu fui embora.


Um amigo preocupado com minha partida, pra ele uma repentina desistência e não uma decisão pensada, me aconselhou e indicou fazer um curso de Teologia. Usando o argumento que a Teologia embora arraigada aos ensinamentos cristãos, acima de tudo, estuda Deus... Eu fiz.


Bendita hora! 

Se é possível uma pessoa ficar mais confusa e cheia de dúvidas após um estudo intenso, essa pessoa sou eu. Pra você, amigo leitor, ter uma breve noção das minhas dúvidas, eu passei a dizer que não tinha religião. Deus só pode ser uma “piada”. Afinal, com que intuito, esse Ser adorado por muitos e desacreditado por outros, complica tanto o que deveria ser simples?


Eu dei uma surtada no meu relacionamento com Ele, pedi um tempo. Ele, em sua infinita bondade e misericórdia, respeitou meu livre arbítrio, entretanto... em sua sabedoria, não deixou de ensinar-me lições. Diárias. Dolorosas, inimagináveis, outras, adoráveis. E como boa e frustrada filha que sou, me dei conta que nunca tive esse tempo, estava aprendendo até quando não queria aprender.

Sim, Ele é F***! Em uma de nossas conversas eu disse, “Ok, Cara! (nosso nível de intimidade é grande) Já entendi, mas vou fazer do meu jeito. Pode ser o caminho mais longo ou mais curto, não sei. Só fica comigo!” E eu fui, de novo.


Dessa vez, fiz um pequeno tour por religiões diferentes. Foi engrandecedor. Algumas vezes assustador... Porém, o melhor foi a “companhia”. Conheci uma pequena diversidade de religiões, e em todas, TODAS, eu aprendi um pouco.
É tão maravilhoso aprender!
Quanto mais peças do meu quebra-cabeça eu encontrava, mais viva eu me sentia.

Quando eu aprendi sobre ser espiritualista (que é algo mais abrangente do que ser espírita, espiritualista eu já sou, agora, estou aprendendo a ser espírita), eu soube que essa busca não cessa. Pois lembrar-se que Deus não é religião, é ressignificar a fé.
Eu fiz isso, novamente...

Passei a devorar tudo sobre religiões, deuses, planetas, outros seres, vidas, energia, fé... Tudo passou a fazer sentido, a contribuir com essa busca por respostas. Quando minha mãe há anos começou, devagarinho, a estudar a doutrina espírita. Quando no escritório em que eu trabalhava, um senhor espírita, me intuía através de livros e mais livros sobre a doutrina e romances relacionados ao espiritismo que ele me emprestava. E quando conheci meu marido, que tempos depois eu descobri também ser espiritualista, e hoje eu sei, espíritos afins atraem-se.

Mas quem mais me ensinou e ainda ensina, sobre espiritualidade, é minha filha Louise. Desde a gravidez aprendo com ela. Vivemos tantas experiências que, se eu ainda acreditasse que a morte existe, imploraria para ser internada, pois eu estaria louca. Tem gente que acredita em coincidências, eu acredito que nada acontece por acaso. Porém, acreditar que a vida não cessa, é só a pontinha do iceberg que acomoda minha fé.

Descobrir-me um ser espiritual, libertou-me de todas as amarras invisíveis que impediam meu progresso como ser humano em primeiro lugar, aprendi a distinguir pela visão espírita, intelectualidade de moralidade. E acima de tudo, me vi disposta a ter mais empatia pelo outro, e tornar o meu olhar menos julgador. Descobri que a nossa reforma e evolução espiritual é íntima, pessoal e intransferível.
Tenho mais dúvidas hoje, do que quando comecei a questionar tudo há 17 anos. Todos os dias quero aprender mais, a sensação de que “nada sei” é real e incomoda.

Tenho mais dúvidas sim, porém, aquele vazio, aquela sensação de ser uma farsa, a angústia, esses? Acalmaram-se. Descobri uma paz que eu não achava ser possível sentir. E a certeza de que o caminho é longo, mas que estou nele.


Texto: Lili Dantas
Imagem: Lili Dantas

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