Cicatrizes
Na minha infância eu enlouquecia minha família. Não que eu fosse uma pestinha, só “batia o pé” quando queria algo e teimosamente perseguia a ideia até descobrir que estava errada ou que ironicamente estava certa. As minhas “companhias” os preocupavam. Eu fazia amizade com o colega que chutava as meninas e colava chiclete nos seus cabelos (o bullying é antigo), no fim eu descobria o motivo dele agir assim. Um quebra-cabeça irresistível. Como se eu fosse sugada para a vida daquela pessoa e não enxergasse só o que ele mostrava, via também o Eu dele “pedindo ajuda”. Cedo descobri que ouvir ajudava, muito. Na adolescência os problemas não eram simples como chicletes em cabelos. Álcool, cigarros, substâncias ilícitas, lâminas em bolsos preparadas para um corte ou dois em lugares que ninguém notaria, anseio por orgasmos que nunca viriam ou que nunca seriam suficientes.
Agora eu conhecia o mundo dessas pessoas que me atraiam como mariposas para a luz (seja por identificação ou empatia), mas seus motivos eram maiores que “lares disfuncionais”. A amiga que era chamada de vadia, era “tocada” pelo pai do mesmo jeito que ele “tocava” sua mãe. O amigo que mantinha na aparência exterior um escudo para manter os outros afastados, só queria ficar invisível para o tio que visitava o seu quarto quase todas as noites e ameaçava fazer aquilo também com a sua irmãzinha caso ele falasse algo. A que usava roupas compridas para esconder os cortes irregulares em seu corpo, por motivos que eu nunca descobri, nem sei se queria saber. Ficava lá, ouvindo o pesado silêncio de coisas não ditas. Esse silêncio dói, pra caralho! Senti cada rosto virado, amizade desfeita, discussões em casa por escolher essas “companhias”. Sim, foi uma escolha. Faria tudo de novo.
Pois tenho atração profunda por pessoas de emoções nuas, cruas. Sabe aquelas feridas expostas, que ainda sangram, e por vezes machucam a si mesmas e as outras pessoas com seus cacos pontudos e cortantes? Não escondem suas falhas, vícios. Estão quebradas. É na dor que somos vulneráveis. Quando sofremos que somos reais. Há uma graciosidade impactante e sensível em “feridas abertas”, as cicatrizes são uma espécie de beleza quase perfeita.
Agora eu conhecia o mundo dessas pessoas que me atraiam como mariposas para a luz (seja por identificação ou empatia), mas seus motivos eram maiores que “lares disfuncionais”. A amiga que era chamada de vadia, era “tocada” pelo pai do mesmo jeito que ele “tocava” sua mãe. O amigo que mantinha na aparência exterior um escudo para manter os outros afastados, só queria ficar invisível para o tio que visitava o seu quarto quase todas as noites e ameaçava fazer aquilo também com a sua irmãzinha caso ele falasse algo. A que usava roupas compridas para esconder os cortes irregulares em seu corpo, por motivos que eu nunca descobri, nem sei se queria saber. Ficava lá, ouvindo o pesado silêncio de coisas não ditas. Esse silêncio dói, pra caralho! Senti cada rosto virado, amizade desfeita, discussões em casa por escolher essas “companhias”. Sim, foi uma escolha. Faria tudo de novo.
Pois tenho atração profunda por pessoas de emoções nuas, cruas. Sabe aquelas feridas expostas, que ainda sangram, e por vezes machucam a si mesmas e as outras pessoas com seus cacos pontudos e cortantes? Não escondem suas falhas, vícios. Estão quebradas. É na dor que somos vulneráveis. Quando sofremos que somos reais. Há uma graciosidade impactante e sensível em “feridas abertas”, as cicatrizes são uma espécie de beleza quase perfeita.
Texto: Lili Dantas
Arte: Henn Kim



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