SEM SENTIDO...



Quando meu coração está partido e sinto dores profundas a ponto de não conseguir falar, eu escrevo.

De início, as palavras saem como lâminas afiadas, cortantes e espinhosas, endurecidas de sarcasmo e vomitadas ironicamente.
Após excitação enérgica, exaurida em meio a papéis manchados do famoso líquido conhecido com lágrima, eu também o chamo de últimas palavras, que escorrem quando esqueci como formar sílabas no meu emaranhado particular de lamentos e pedidos de socorro... Desmorono, como se eu fosse feita de dor.

Você sente isso?
1, 2, 3, 4... 4, 3, 2, 1... inflando e desinflando meus pulmões, e ainda sem conseguir respirar. Sinto o hálito nos meus ombros, por apenas um momento, eles estão lá. Reconheço o eco. E quem sou desintegra-se com a mesma delicadeza que os monstros escondem-se debaixo da cama.
Frio. Paralisada em tormento. Uma embalagem para presente de tortura, com estampa de aflição, laço colorido de agonia, etiqueta de angústia... um pacote de sofrimento.
Feridas expostas de alguém que implodiu e desaprendeu a sentir sozinha. Comiseração de ser coletivo quando deveria ser uno. Às vezes não é uma escolha, pois escolher é presente.

Em meio a estilhaços e poças de sangue, sentindo-me minúscula e impotente, erguendo os braços até minhas veias e músculos esticarem a seu ápice, mas sem conseguir alcançá-lo. Luzes apagadas, linhas quebradas, preciso tocar o desconhecido.
Em silêncio, de olhos fechados, pegando estradas que me levam a lugares obscuros, sem fazer sentido, para viver mentiras honestas.
Quebrada, após perder tantas peças de mim mesma, e conseguir enxergar mesmo de olhos fechados, encontro o sentido de não fazer o menor sentido.

Texto: Lili Dantas
Arte: @elsenderodelchaman

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